quinta-feira, 11 de outubro de 2012
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
SOMBRA NO CREPÚSCULO...
Melissa estava cansada do silêncio. Era hediondo, perturbador e profundo. Um silêncio que vinha do lugar mais remoto da terra: a alma humana. Mas não era só isso, ela estava num crescente estado de pânico. Noites mal dormidas. E aquela quietude abismal que a destruía. Nem ao longe, sequer um único som retumbava. O som de um carro, vozes de estranhos, passos de transeuntes, nada ressoava na escuridão que a violentava. Melissa apenas podia sentir a garganta cada vez mais seca.
A madrugada avançava e Mel ora fitava o teto, ora rolava na cama. Levantou-se finalmente. Abriu a gaveta e com ajuda de seu abajur velho ela folheou indiscriminadamente bulas e receitas médicas em busca de algo que lhe devolvesse o sono ou a reconfortasse das lágrimas e do infortúnio. Entre os papéis estavam todos os seus exames de rotina; cardiovascular, cardiorrespiratório, eletrocardiograma, eletro-encefalograma, audiométricos, entre tantos outros. Tudo estava em perfeita simetria. Para melissa não existia nenhum distúrbio que explicasse aquela sensação de um frio intenso capaz de rasgar seu corpo ao meio. Não havia nenhum mistério além de uma certeza iminente.
O que mais a irritava eram os remédios psicotrópicos receitados pelo seu psiquiatra. Ele dizia que o grande mal daquela pequena era o mesmo mal que assola a humanidade: a insônia. Mel odiava-o com todas as suas forças, porque sabia que toda vez que ficava sozinha com ele a conversa ironicamente se inclinava aos apetites sexuais daquele senil. Suas mãos rançosas e ásperas lhe davam náuseas. Melissa discordava da loucura em que se via mergulhada. Diagnóstico clínico: esquizofrenia. O esfalfamento a engolia e o dia-a-dia fazia aumentar sua austeridade e tornava sua polidez cada vez mais diminuta.
Melissa abriu a geladeira. Sorveu um litro de água em longos goles. Nenhum efeito. A sede aumentou. Ela abriu o freezer e viu uma garrafa de uísque comprada há meses. Ainda estava lacrada. Arrancou ferozmente o lacre com tampa e tudo. Bebeu quase meia garrafa num único gole. Nada. Outro trago de uísque. Mais longo, amargo, pungente. Sua cabeça girou e ela caiu sobre a cama enquanto ouvia a garrafa se despedaçar no chão. "Vá se foder" ela gritou para si mesma. "Sua burra".
Melissa sabia que aquele silêncio apavorante não era habitual, não fazia parte da noite, nem da calmaria da cidade quando dorme. O silêncio era a voz do demônio espreitando a alma, oferecendo a ela o evento mais deprimente da vida: o espetáculo da morte.
Ela tinha certeza mais do que ninguém sobre o vazio que rondava seus dias. Pessoas cochichavam atrás das portas, esquivavam-se de conversas íntimas e abraçavam-na como se fosse o último adeus. O tempo era cinzento e pesado como chumbo e dentro dela o amargor consumia seu espírito. Sua cabeça era uma tempestade.
Pesarosamente Mel caminhou até o lavabo desviando dos cacos de vidro. Olhou-se no espelho. A palidez não mais a incomodava, só o maldito silêncio. Ela então lavou as mãos e o rosto, abriu o armário do banheiro e pegou dois comprimidos. Um analgésico e outro antidepressivo. Tomou ambos de uma vez. Voltou a olhar-se no espelho. Procurou em vão algum fio de cabelo que lhe restasse da quimioterapia. Porém, Mel nem via mais seu rosto, apenas o de um esqueleto com pedaços de pele putrefata. Suas entranhas estavam abertas e suas vísceras dependuradas. Melissa coçou os olhos. As entranhas doíam e continuavam a escapar para fora do ventre. Parecia real. Ela não estava louca. A visão do noivo indo embora com outra mulher lhe atormentava tanto quanto as ligações em vão para amigos que desapareceram. Sua vida tinha sido desperdiçada.
Ela nada fez senão contemplar sua hora. Desistiu de lutar e se entregou completamente à fatalidade. Suas roupas estavam ensopadas de sangue coagulado. Mas era belo saber que somente o som do vento soturno poderia acalentar seu desassossego. Melissa soltou a faca e virou-se abruptamente abraçando sem medo quem tanto a esperava atrás das sombras do crepúsculo. Seus pulsos adormeceram. Seu corpo e sua mente saíram de sintonia. Restou o sorriso e o lamento.
“Enfim sós, meu amor”. Era o sussurro que enfim rompia o silêncio e o drama. “Venha, vamos dançar nossa valsa.” Insistiu a morte esticando seus braços esqueléticos para melissa. E dançaram engalfinhados em direção ao infinito. No meio do quarto um corpo tombou sem vida. Ela finalmente estava livre.
quarta-feira, 6 de junho de 2012
“Meu Deus!” Eu pensei quando despertei do sono profundo. Ela estava ali, simplesmente nua. Coloquei as mãos na cabeça e me sobreveio a mais triste indagação: “o que eu fiz?” Na boca o gosto forte de bebidas e cigarros. Na cabeça a fúria dolorosa de uma noitada de sexo, drogas e rock’n roll. Não é apenas um jargão, nem um clichê em desuso. Era a mais pura verdade, a mais vívida das perversões.
O ato estava consumado e tudo estaria bem depois de muita água e analgésico, não fosse pela realidade nua e crua que se apresentava. Ninguém sabia nossa história, se é que tínhamos alguma. Não sei dizer se ora éramos amigos, ora amantes, se nosso sangue era de irmãos ou de almas extremamente errantes.
Eu não conseguia se quer olhar para ela, tão linda e desnudada e tão bucólica. Seria a paixão uma forma arrebatadora de pagar nossas iniqüidades ou nela protelar nossa redenção? O cheiro me dava náuseas e as marcas que deixamos em nossos corpos a grande repulsa. Tudo que vivemos numa noite era mais do que meras impressões. Afrontamos o sagrado e nos deleitamos do profano.
Corri para o banheiro e deixei que água escorresse por meu corpo. Eu queria lavá-lo, apagar o que de maléfico e malicioso nele ficou tatuado. A mente turva e corrompida não tinha como ser expurgada de seus terrores.
“Vem brincar com o papai”. Era o sussurro dele de volta a me assombrar. Mas ninguém mais me tocaria se eu não permitisse. E eu jamais colocaria numa bandeja de prata a juventude de quem quer que fosse, a inocência dos igualmente vulneráveis. Sentei no chão do banheiro e chorei. “Mamãe não está mais aqui”. Onde estará?
Respirei fundo e me levantei enfático. “Hoje não”. Desliguei o chuveiro e descalço tateei a parede procurando a toalha. Ela jamais me veria nu novamente. Nem nu, nem rijo, nem com qualquer vestígio de um desejo carnal.
-- Ana! – chamei-a como o algoz.
Silêncio.
-- Ana!
Lancei-me quarto adentro numa busca feroz. A casa estava tão vazia quanto meu gene egoísta. A porta da rua – entreaberta – era um claro sinal de fuga. E ficou a sensação nítida de uma alma fugindo de si mesma. Do que fizemos. Dos nossos pecados e da nossa insensatez.
Dos meus pais a lembrança do enterro da própria mãe, do pai beberrão culpado de minha puerícia rasgada com a tênue gilete que cortava borboletas. Um prodígio vendido como boneco de porcelana. Nem a morte me queria, então matei o meu torturador e escondi-me durante anos na figura de um pai ausente. Hoje descobri que tinha descumprido a promessa de não ferir mais ninguém.
Ana. Seus lábios são labirintos.
quinta-feira, 24 de maio de 2012
POESIA
Incêndio no fogo brando
Bocas pérfidas e línguas nuas
Beleza crua. Na pele tua
Meu perfume (habitat)
No fundo das nossas carnes
É como me sinto quando te possuo
É ardor quando teu desejo vive em mim
Amor fugaz. Silêncio insano dos atrozes
O que somos um para outro?
Das paixões os albatrozes
Vamos nos comer e nos consumir até que
morte
Até que a morte nos separe,
E rasgue-nos ao meio com teus trovões
Antes da alegria a tristeza personifica
O apego é isto: saúde e doença e
tempestade.
II
Vejo-te a olhar-me quase desfalecida
Angelical e demoníaca enquanto suga
Molha, sente, goza e gosta. É paradoxo
Pede mais até que eu perpetre o crime
Teu prazer; barbárie que me agasalha
O sorriso - servidão e solidão que engana
Assim eu sigo o ritmo do vaivém inteiriçado
Dentro de você é estar mais dentro de mim
Quanto mais intenso, mais gritos, mais ofensas
São nossos dias dionisíacos. Ciclos vitais. Afrodite.
Então eu derramo em ti a seiva que precede o fim
O mesmo fim de todos os dias na mesma cama.
III
Na tua face ardente fica o beijo
A despedida, o sussurro, o arquejo
Tuas mãos perdem-se em meus dedos
O abraço e o calor se desmancham no ar
Fenecer do rito, tragédia dos impudicos
Eu – o sagrado e o puro que profana.
Tu – tímida e despudorada que inflama.
Sempre erótica
Sempre louca
Sempre desnuda
Sempre.
Vejo-te a olhar-me quase desfalecida
Angelical e demoníaca enquanto suga
Molha, sente, goza e gosta. É paradoxo
Pede mais até que eu perpetre o crime
Teu prazer; barbárie que me agasalha
O sorriso - servidão e solidão que engana
Assim eu sigo o ritmo do vaivém inteiriçado
Dentro de você é estar mais dentro de mim
Quanto mais intenso, mais gritos, mais ofensas
São nossos dias dionisíacos. Ciclos vitais. Afrodite.
Então eu derramo em ti a seiva que precede o fim
O mesmo fim de todos os dias na mesma cama.
Na tua face ardente fica o beijo
A despedida, o sussurro, o arquejo
Tuas mãos perdem-se em meus dedos
O abraço e o calor se desmancham no ar
Fenecer do rito, tragédia dos impudicos
Eu – o sagrado e o puro que profana.
Tu – tímida e despudorada que inflama.
Sempre erótica
segunda-feira, 30 de abril de 2012
XEQUE-MATE!
------------- POSTAGEM ORIGINAL-------------
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Esta semana
encontrei em casa uma correspondência perdida desde os primeiros dias de 2011.
Estava ali, lacrada, intocável e virgem, mas irredutivelmente querendo me dizer
alguma coisa protelada – talvez acidentalmente – durante onze meses. Pensei em
esperar, pacientemente, até ela aniversariar seu primeiro ano. Daí eu faria um
bolo e cantaria “parabéns pra você...” Contudo, deixando de lado o mau gosto da
piada, além de não ter apreço por rituais inúteis, eu também gostaria de saber
quem era o remetente que infelizmente ficou quase um ano sem resposta. sábado, 10 de dezembro de 2011
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Todo ano é sempre a mesma coisa: eu escrevo para o Papai Noel e começo minha ladainha dizendo que fui um bom menino durante o ano. Deus e o diabo sabem que estou mentindo descaradamente sem nem ficar vermelho. Esse é um ritual que me dou ao luxo de fazer todos os anos, nos últimos trinta anos. Nunca recebi nada, nem resposta, nem presente, nem mesmo uma banana como a que ganhamos em época de eleição. Contudo, este ano resolvi fazer diferente, começando por dizer a verdade e eis minha niilista missiva:
sexta-feira, 18 de novembro de 2011

quarta-feira, 24 de novembro de 2010
Divorciados Amantes - James e Camile.
Berthold Brecht certa vez escreveu sobre a violência dos rios, quando se diz das suas ferozes correntezas. E ele completa, no mesmo verso, mostrando causas mais violentas que o leito do rio que deságua: as suas próprias margens que o comprimem. E nessa torrente, qualquer futuro é incerto.
James colocou as chaves do carro sob a mesa e pegou alguns memorandos. Estava tudo em ordem e mesmo que não estivesse ele talvez nem teria percebido. Homem de uma desgraça iminente na vida amorosa tinha acabado de desfazer sua relação com Dolores, uma menina pelo menos vinte anos mais nova. Namoraram três meses e isso foi tudo, o máximo daquele bad romance. James sentou-se e chamou sua secretária pelo ramal em viva voz. Era uma quinta-feira louca de abril, uma semana antes da páscoa.
A história desse personagem pitoresco, aqui não terá antes e depois, é apenas uma sucessão de desejos episódicos. E assim como leu Virgílio na porta de entrada do inferno - deixai toda esperança, ó vós que entrais! - sentirão-se todos desconfortáveis neste ensaio que narrará fragmentos de uma vida idiota.
-- Ana, por favor, venha até minha sala.
-- Sim senhor. Já estou indo.
Ela era uma mulher de quarenta anos. Mesmo quando ninguém entendia as atitudes e decisões de James, Ana entendia e entendia perfeitamente. Ela era seu braço direito, aliás, seu braço, suas pernas, seu corpo inteiro. De forma apressada e um tanto rude ela pediu licença às pessoas que aguardavam atendimento no hall de entrada do prédio e dirigiu-se rapidamente até a sala de James. Entrou sem bater como já era de costume.
-- Pois não senhor?
-- Odeio quando você fala assim.
-- Desculpe senhor.
-- Dispense as pessoas que me aguardam. Não poderei atendê-las hoje.
-- Mas James essas pessoas estão lá embaixo há horas...
-- Ana, você está me questionando de novo?
-- Ok, mais alguma coisa senhor?
-- Sim, me responda uma pergunta com sinceridade...
-- Claro senhor.
-- Você me acha saível?
-- Saível?
-- Sim, alguém que seja interessante para alguma mulher?
-- Você é um homem lindo senhor, tem dinheiro, status, posição social, elegância...
-- Não exagere. Suas mentiras descaradas um dia me farão bem ou te colocarão no olho da rua, mesmo assim obrigado. – ele sorriu com o canto da boca.
-- Por nada. – ela acenou com a cabeça.
-- Ana...
-- Sim?
-- Eu posso ver seus peitos?
-- Claro que pode.
-- Tranque a porta.
Ana girou a chave enquanto nos lábios um sorriso se abria e suas covinhas charmosas completavam a profundeza entre o angélico e o diabólico. “Eu já sabia”, ela pensou.
James a viu tirar o sutiã vagarosamente enquanto se aproximava da mesa. Ana nunca tivera filhos, embora tivesse sido casada duas vezes. Seu busto e quadris eram demasiados largos e, porém, bonitos e firmes como de uma adolescente. Ela não se importava em transar com seu chefe na sala, nem de dormir em seu apartamento no Leblon em “certos” fins de semana. Ninguém acreditaria em trabalho acumulado. O tesão, talvez.
Aquilo que eles praticavam não era uma relação afetiva e Ana já havia se habituado a dar prazer sem amor, a ser a empregadinha puta preferida do chefe. Eles tinham outra mentalidade para o que significava pudor. O que as pessoas pensavam disso? Não importa. Não naquele momento, nem naquela estranha situação. Gemidos - de novo - na sala de reuniões? Puro sarcasmo do big brother corporativo.
Ana levantou a saia e sentou-se no colo de James. Seu volume na calcinha molhada e transparente enlouquecia qualquer bebezão marmanjo. Ela sabia que ele estava carente, sabia também que a sua aventura com Dolores era passageira. James sugava-a, bebia em cada seio a molequeira e as máculas da juventude de um quarentão frustrado. O Homem é pura paixão, puro desejo. A ética que vá para o inferno, o Homem é o lobo do próprio Homem.
James jogou os papéis e as coisas da mesa no chão. Ana estava pronta pra ser possuída ali mesmo, desejava ter pelo menos um orgasmo, já que ele não era muito bom de cama, nem de conversa, nem de relações humanas. Era na verdade um sexo mais de compaixão do que de qualquer outra coisa. A libertinagem parecia mais uma via-crúcis freudiana, um sacramento de Schopenhauer, do que o gozo mórbido de Jung e o Grande Outro de Lacan ou as verdades líquidas de Bauman. James saiu de si e forçou Ana a chupá-lo com força. A vida só pode mesmo ser um sofisma.
-- Isso! Assim mesmo sua vadia...
-- Tá gostoso chefinho?
-- Delícia... Não pára... Hummm...
Não demorou muito pra que ele arrancasse a saia de Ana e enterrasse a língua em sua boceta enquanto seu membro pulsava de excitação fora da cueca. James deu uma cuspida entre o ânus e os lábios vaginais, era a mesma hora mágica que no Éden condenou todos os Homens à finitude dos prazeres.
Enquanto a estocava, James pegou o celular da gaveta e olhou no visor. Havia três ligações perdidas de uma velha conhecida. Ele empurrou Ana grosseiramente para o lado e pediu que se vestisse e saísse. Deu-lhe o resto do dia de folga. Em seguida ele retornou a ligação de sua ex-mulher e o fez meio indisposto.
-- Alô.
-- Camile?
-- Quem é?
-- Sou eu o James.
-- Ah sim. Diga.
-- Diga você, peguei três ligações suas no meu celular.
-- Eu só queria saber como você estava.
-- Só isso?
-- Só, por quê? Alguma lei me proíbe de ligar pra você?
-- Não é isso. É que você nunca foi de ligar “pra saber” como estou. Achei estranho. E você me empatou uma foda.
-- Com sua secretária de novo? Você é uma figura... Bom, a verdade é que precisamos sair pra conversar.
-- Sobre?
-- É um assunto delicado.
-- Então é melhor você vir até a empresa e conversar com meu advogado.
-- Advogado?
-- É... Toda vez que conversamos, eu acabo precisando de um advogado.
-- Pára de ser bobo, você não vai ser preso.
-- Não dessa vez né?
-- Não.
-- Então adianta a pauta.
-- Eu estou solteira. Larguei meu noivo.
-- Noivo? Você tava noiva?
-- Sim, por que a surpresa?
-- É estranho. Devo soltar fogos ou me vestir de preto?
-- O que? Você acha estranho suas ex-mulheres ficarem noivas?
-- Não, mas acho estranho algum maluco noivar com você. Aliás, só estando maluco ou drogado mesmo...
-- Ué, porque a grosseria? Nós não ficamos noivos antes de casar?
-- Não, você me embebedou e quando eu acordei já tinha casado, passado pela lua de mel e sua mãe tava morando com a gente. Eu me senti o Macgyver em profissão perigo.
-- Você não existe.
-- Como eu queria que você acreditasse nisso!
-- Então... Eu e meu noivo rompemos semana passada.
-- Tá. E onde você enterrou o corpo?
-- É sério caceta...
-- Eu sei e é isso que me preocupa. Melhor eu chamar a polícia e buscar meu terno de funeral.
-- Não gostaria de jantar comigo esta noite?
-- Não.
-- Por que não?
-- Porque eu não paguei meu seguro de vida esse mês.
-- E o que você pode perder jantando com esta linda deusa?
-- Esta linda deusa seria...
-- Euzinha!
-- Nem fudendo! A minha dignidade quase foi pro ralo no nosso último encontro... Além do mais não sei se meu seguro de vida, mesmo quando eu pagar, cobre intoxicação alimentar... Minha resposta é não. E passar bem.
James desligou o celular, estava disposto a esquecer aquela conversa indigesta com Camile. Sabia que qualquer relação com ela era sinal de fumaça e onde há fumaça o incêndio é certo.
*****
Passaram-se dois dias depois da ligação. Camile nem deu mais sinal de vida. James imaginou na roubada que teria se metido se tivesse aceitado o convite. Ele olhou o relógio, era também aquela típica sexta-feira 13 de calor escaldante, um abafado fim de semana que chegava no Rio. Infernal em todos os sentidos.
Ana tinha saído de licença por uma semana por conta de seu mal-estar na quinta de manhã. Inevitavelmente, James trabalhou até mais tarde naquele dia e no outro e já pensava em fazer hora-extra no sábado. Com o céu ainda claro, a amnésia o atacou sobre planejar um fim de semana tão miserando. A única saída - triste constatação - era fazer um happy hour saboreando no Fasano, perto do Arpoador - quem mora no Rio sabe a delícia de ser carioca -, um risoto de feijão branco com linguiça enquanto beberica um bom vinho tinto.
Com a chave do carro na mão, James olha as horas em seu rolex preto e decide ir caminhando até o restaurante. Ele pede então ao motorista de sua empresa que leve seu veículo até à casa de sua mãe ali perto e o ponha na garagem.
-- A véia vai estar te esperando na porta.
-- Sim senhor.
-- Pode ir.
A praia estava linda, numa beleza que parecia nunca mudar, tomada por surfistas e garotas bonitas com seus biquínis pequeníssimos. “A vida é tão bela” pensou ele enquanto tirava os sapatos para andar na areia. De repente um trovão rasga o céu de seus pensamentos.
-- Jameeeesssss... Oiiiiiiiiiii...
“Vida de Merda” repensou.
-- Ai meu Santo!
-- Que faz aí descalço na areia a essa hora?
-- A palavra “caminhada” não significa nada pra você?
-- Não quando "caminhar" se refere a você em exercício físico. Seu carro quebrou?
-- Não, deixei na empresa e decidi ir andando até em casa.
-- Mentira.
-- Tá. Eu entrei com ele dentro do mar porque pensei que fosse um carro anfíbio. Mas não é e eis me aqui.
-- Você continua o mesmo.
-- Idem.
-- Porque você não aproveita e faz uma oferenda pra Iemanjá?
-- Tem razão. Talvez ela me afaste as assombrações...
-- Eu sou uma assombração na sua vida?
-- Na verdade não.
-- Jura?
-- Claro, porque você sinceramente é UM ENCOSTO!
-- Credo. Não quer carona ô grosseria em pessoa?
-- Não.
-- Eu fiz uma jantinha em casa, mas não quero comer sozinha. Que tal se...
-- Veja bem a atual situação...
-- Não precisamos fazer nada, nem dizer nada. A gente come, assiste à novela das oito e depois você vai pra sua casa.
-- Bom... A idéia não é de toda má. A parte do silêncio é a que mais me agrada.
-- Entra no carro.
-- O quê! Que presunção a sua, eu não afirmei nada.
-- Venha, eu aprendi a ler seu olhar.
“Se ela leu fodelança no meu olhar, então ela é boa mesmo” pensou James.
***********
-- Isso amorzinho! Que delícia... Vai... Vai... Não pára!
-- Ah já chega, fiquei cansado.
-- Puxa James, coça mais um pouquinho minhas costas vai...
-- Só se você me fizer uma massagem primeiro.
-- Tira a camisa.
Camile era uma mulher de dois extremos: tinha mãos leves e macias, um jeito carinhoso de preparar e arrumar as coisas. Mas ela tinha, em contrapartida, uma língua infernal - nos dois sentidos. James fechou os olhos e lembrou-se da sua infância.
*****
-- Posso me sentar ao seu lado?
-- Oi querido, claro que pode, achei que você não viria.
-- Apesar das nossas briguinhas idiotas, sentirei saudades desses olhos grandes e azuis quando estiver na faculdade.
-- Eu também, minha bolotinha favorita.
Ele era um garoto gordinho e descolado. Não teve muitas namoradas ou experiências amorosas até ali. Mas aquele menino de olhos castanhos e tristes era fofo, adorado pela escola, tanto que virou mascote da torcida. As mulheres adoravam deixá-lo de pau duro só pra constranger o infeliz. O pior episódio foi quando Carolina, a menina mais bonita de sua sala, resolveu na hora da apresentação do trabalho de James abrir as pernas e mostrar que por debaixo da saia não havia nenhum acessório para tapar a visão linda de sua bocetinha rosada. Naquele fatídico dia ele estava de calça de moletom. Nem a professora conseguiu ter jogo de cintura diante daquela cena inusitada e insólita: James estava com o membro ereto. Querem mais? O prepúcio do menino quebrava a idéia fixa que todos nós temos de que gordinhos têm pinto pequeno.
-- James... - Ela o abraçou.
-- Carolina... - Ele suspirou
-- Acha que alguém pode nos ver aqui nessa colina ou ver o que estamos prestes a fazer.
-- Acho que não. – o coração dele disparou quando resolveu fazer a pergunta – mas o que estamos prestes a fazer?
Carolina o beijou ardente, com seus lábios carnudos, molhados, quentes, sua língua viscosa e doce se misturava com o batom sabor de cereja. Ela levantou a blusa e pediu que James chupasse seus pequeninos seios. Sem seguida as mãozinhas macias e experientes de Carolina masturbavam aquele membro relativamente grande. Ele estava maravilhado. Teria sua primeira experiência sexual.
James a deitou com cuidado na grama continuou beijando-a e foi tirando a calça leve que Carolina vestia. Ela estava sem calcinha, seus lábios vaginais molhados, cheirosos, apetitosos, eram apertados, embora não mais virgens. A língua do púbere ia dos seios ao clítoris, do anel do ânus à sua entrada. Os deuses haviam possuído seus corpos e feito de suas almas um cárcere do amor pueril. Carolina se contorcia, gemia, masturbava-o, chupava até as bolas daquele membro, que para ela era tão suculento, vermelho, rígido, firme, que havia - naquele momento - se fundido a ela como um único mapa esquelético da existência. Ela jamais poderia imaginar o quanto aquele garoto bobo era fogoso.
-- Vai meu amor, vai... Eu te amo... Isso assim... Mete gostoso... Mete tudo, me arromba!
-- Então mexe gostoso sua puta... Mexe assim, vai, vai, vai... Assim mesmo sua piranha!
-- Adoro ouvir seus xingos seu puto... Você gosta dessa vadiazinha? Gosta? Ai... Isso...
-- Adoro sentir essa buça molhada, adoro... Sua vadia, vadiaaaa!
Foi a primeira vez que se amaram. Foi a última que se viram.
*****
-- Eu vou gozar! Hummm...
-- Eu também, eu também... Vamos gozar junto, vamos... Isso! Que delícia paixão, que delícia..
No dia seguinte Camile e James almoçavam juntos enquanto planejavam uma pequena viagem na semana santa para uma possível segunda lua de mel. Às vezes as pessoas se encontram em determinados contextos que as fazem cometer atos que fora daquele contexto elas normalmente não cometeriam e esse contexto que influencia as ações dos Homens também regula as normas e modelos normativos que vão eximi-los ou puni-los de suas ações. Isso se chama instituição e têm um sinônimo bem peculiar: casamento.
Talvez essa aventura pela modernidade um dia continue, visto que o futuro sempre é incerto. Guimarães Rosa disse certa vez: "Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente. Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser um crocodilo porque amo grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem. Na superfície são muitos vivazes e claros, mas nas profundezas são tranquilos e escuros como o sofrimento dos homens”.
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***Conto baseado em fatos reais e é uma homenagem a dois antigos amigos que decidiram a reconciliação. Senti-me no direito de expressar tudo que vi desde então, ocultando apenas os nomes e os lugares e algumas pessoas, e narrando das preocupações à redescoberta de si mesmos em cada um. Eles tiveram muitas idas e vindas, mas jamais deixaram de ser felizes um com o outro e um sem o outro.***
By
Arquiduque.







